
Texto: Jéssica Figueiredo, Gi Ismael e Flávia Tabosa | Fotos: Rafael Passos
Apesar dos pesares acontecidos na primeira noite do Festival Mundo 2011, o segundo dia ainda se mantinha como o mais chamativo, convidando um público talvez três vezes maior do que o da noite passada. O motivo disso estava na programação: a banda baiana/paulista Vivendo do Ócio e os cariocas da Autoramas entraram como headliners, ao lado de bandas locais e de outros estados.
Indo do metal ao indie rock e finalizando com o balanço do rap, garantido pelo paulista Kamau, a última noite do Festival Mundo finalizou mais cedo que o programado – resquícios dos “problemas políticos” que aconteceram na noite anterior. Além disso, problemas técnicos de som prejudicaram o principal show da noite, deixando as apresentações mais curtas pelo resto da noite.

Warcursed
Porém, não há nada para reclamar sobre a organização do Festival. Até a programação fazia sentido: quem queria curtir o melhor do metal pesado, trash metal e ritmos musicais dessa área, a ideia era chegar cedo. Às 16h em ponto, a os campinenses da Warcursed apresentaram seu som pesado, cheio de guitarras, baterias e um vocal gutural de destaque. Levando os “cabeludos” a bater cabeça na frente do palco, o show abriu o line-up de bandas “carregadas”, acompanhado da segunda atração:

Thyresis
A carência de eventos para os “camisa preta” ficou evidente quando a Thyresis entrou no palco e dobrou o público. Apresentando seu disco homônimo lançado em 2008, era fácil achar bocas acompanhando a voz grave de Victor Hugo. A energia começou a querer se soltar junto com a bateria rápida e as guitarras pesadas, o público começou a se agitar, acompanhar as músicas batendo cabeça esporadicamente, com movimentos inexplicavelmente contidos. A banda instigou e bateu cabeça com sagacidade.

Rotten Flies
Então a Rotten Flies entrou no palco com seu punk/hardcore e começou a agitar mais ainda a platéia. Vez ou outra, algum marmanjo acompanhava as batidas desenhando um círculo em frente ao palco, numa dança frenética, olhando para os lados, num convite subjetivo para uma roda de polga começar a qualquer momento. A banda divulgou algumas faixas de seu novo álbum, “Rota de Colisão”, lançado pelo selo subfolk de Ilsom Barros, mas não deixou de cantar os clássicos da banda, como “Minipsicopata”, tampouco perdeu sua essência de protesto e denúncia. Apesar do público fiel e numeroso, a polga não aconteceu.

Zefirina Bomba
Basta morar em João Pessoa por pelo menos dois, três anos, que você saberá como é um show do Zefirina Bomba. Eles entram no palco, se montam nos instrumentos e engatam numa marcha só três, quatro, cinco músicas inteiras, ininterruptamente. Via de regra, esse poderia ter sido mais um show do Zefirina – que de destaque tiveram músicas inéditas, ainda a serem lançadas -, mas não foi.
Ilson Barros, dono de um violão “todo fudido, que só é assim porque eu não tinha dinheiro para comprar guitarra”, como contou o próprio logo depois do show, soube do ocorrido na noite passada e provocou a platéia num discurso contundente – e até iluminador, de certa forma. “Essa banda já rodou a Europa, foi para a Alemanha, Portugal, Paraguai, Uruguai, e recebemos o melhor tratamento do mundo! Daí a gente chega aqui e vê uma coisa dessas acontecendo… É demais!” declarou ele no microfone (em alto e bom som, para todo mundo ouvir) e completou: “Essa música… Fala disso!”, e lançou o “Não!”, faixa do disco “NoiseCoreGrooveCocoEnvenenado”.
E finalmente, neste show, os afoitos para descarregar a energia formaram uma breve, porém brutal roda de polga.

Uma pequena pausa (burocrática, determinada por normas do Espaço Cultural para que houvesse a missa dominical na igreja vizinha) dividiu as atrações musicais da noite em apresentações de teatro e no planetário, que dissipou um pouco o publico atento ao palco da Praça do Povo.
Em meio às constelações, o Melhor Amigo do Homem improvisava um repertório experimental, regado de rock progressivo, música eletrônica e até mesmo variações caminhando para o funk. A viagem ao centro do universo de Rick Wakeman, lá, parecia inverter o curso e seguir para outro lado; para além do lado negro da lua.
A banda, surgida durante o Festival Mundo 2010, é um projeto elaborado por Felipe Spencer, Victor Ramalho e Thiago Sombra. Nas estrelas, cenas dos curtas Plano de Cachorro (Arthur Lins/Ely Marques) e Cão Sedento (Bruno Sales/Shiko) se projetavam no Planetário, acompanhadas de músicas com bases definidas, porém com desenvolvimentos free style; sem roteiro.
Logo em seguida, foi a vez de Chico Correa “brincar” com a música experimental com seu projeto intitulado Monotone. Utilizando diversos meios (pedais eletrônicos, objetos sonoros etc), a apresentação contou com a participação de Victor Ramalho e Cassiano Silva. A vibe do improviso continuou e finalizou os shows no planetário levando o som ao limite das estrelas.

Malefactor
As duas horas de intervalo não incomodaram, pelo contrário: pareceram correr contra o relógio. Assim, depois de trasncender em constelações musicais no Planetário e assistir a apresentações cênicas na Praça, rapidamente a platéia estava de volta para checar mais “cabelos” voando por cima das guitarras, baixos e vocais da banda Malefactor. Mesmo redonda e agradando ao público interessado, a ansiedade maior estava para os meninos da banda seguinte, que já se armavam no segundo palco do Festival.

Vivendo do Ócio
Desde o lançamento de “Teorias de Amor Moderno”(2008) que os baianos da Vivendo do Ócio conquistaram – e provavelmente continuam conquistando – fãs por todo Brasil. O sucesso dos clipes do quarteto na MTV fez com que músicas como “Terra Virar Mente”, “Amor em Fúria” e “Meu Precioso” se tornassem clássicos do indie-rock nacional. Em João Pessoa, o favoritismo dos baianos de cabelos cacheados não poderia ser diferente – e foi com esses e outros sucessos da MTV que a banda deu “play” no setlist do show do Festival Mundo.
Comportados como as calças skinny, porém agitados como o descabelar dos cachos e cabelos, o quarteto baiano/paulista fazia um show inédito, que contou até mesmo com um cover de “Baba O’Riley”, do The Who. Tudo ia nos conformes até que, de repente, a voz do Jajá Cardoso começou a falhar. No segundo verso da canção inédita “Silas”, ninguém da platéia ouvia mais o vocalista. Então, a banda parou.
Deixando a platéia à mercê do que acontecia no palco, os integrantes da banda se reuniam – detalhe: na metade do show – para resolver os problemas de som & retorno, inesperados (ou mais uma intervenção da Secretaria de Meio Ambiente – Semam). Voltando com a péssima notícia que o som teria que baixar e só restava uma música para acabar, os garotos entoaram o hit “Fora, Mônica”, fechando a apresentação sem mais problemas técnicos (pelo menos).

Autoramas
O que havia de errado no som do Vivendo do Ócio felizmente foi corrigido, e mesmo começando em volume baixo, Autoramas aumentou o volume com seu rock’n'roll cru e, literalmente, “crocante”. Performáticos, cheio de dancinhas ensaiadas, a banda tocou desde músicas de seu novo disco, “Música Crocante”, a algumas do anterior “Nada Pode Parar os Autoramas”, lançado em 2003.
Lá pelo meio do show, Gabriel Thomaz, vocalista e guitarrista, representou o incômodo de todos da noite, declamando: “Tem um pessoal que abre a mala do carro, coloca um axé horrível na maior altura e ninguém reclama… A gente tá aqui, fazendo e ouvindo música boa, e vem gente reclamar. Música boa é pra tocar alto!”. E, mesmo com o microfone sem funcionar, entoou aos gritos “vou cantar uma música sem microfone”, a platéia foi ao delírio e o show finalizou com um digno cover de “Surfin’ Bird”, do Ramones.

Baiana System
Depois dos destaques da noite, a guitarra baiana veio para descontrair o público. Com seu “axé psicodélico”, era identificável uma variação incrível de influências brasileiras, acompanhadas pelas improvisações fascinantes de rap que compunham um show de extrema qualidade sonora, com um palco repleto de bons músicos. Os elementos eletrônicos bem mixados deram um ar renovado às misturas que é de costume para nossos ouvidos e formularam uma abertura incível para o Kamau, que finalizaria a noite e o Festival Mundo 2011.

Kamau
Era evidente a empolgação dos rappers com a receptividade do público do Festival Mundo. Kamau começou seu show com letras fortes de protesto, sempre mantendo uma interatividade incrível com o público. Bem estruturado, o show passou de protestos para romances e finalizou com descontração. No palco, os rappers se divertiam, dançavam e pediam que a platéia acompanhasse com os braços pra cima gritando ‘hey, yo’. Depois de passar por batidas fortes, letras sensacionais e danças combinadas, Kamau anunciou não apenas o fim daquele espetáculo, mas também o fim do Festival Mundo 2011.
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